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Cultura, História

Cinema em Campos do Jordão

Campos do Jordão não tem cinema. Certo?! Errado, mas muita gente da cidade pensa assim. Só que Campos do Jordão tem cinema sim, e desde 1943. Trata-se de um bonito prédio que hoje atende pelo nome de Espaço Cultural Dr. Além, mas que antigamente atendia pelo nome de Cine Glória.

Espaço Cultural Dr Além, o antigo Cine Glória.

A Sala – Espaço Cultural Dr Além, o antigo Cine Glória.

Localizado no centro da Vila Abernéssia, o Cine Glória durante vários anos foi o principal ponto de encontro da sociedade jordanense. Como todo bom cinema serviu de janela para o mundo para muitas pessoas e foi testemunha de muitos primeiros beijos. Mas infelizmente nas últimas três décadas perdeu sua “glória”. Os tempos áureos dos anos 50 e 60 ficaram pra trás e como todo mercado cinematográfico brasileiro, o cinema de Campos minguou ao final dos anos 80 e início dos anos 90 por conta da recessão econômica da época. THE END!

Cine Glória - Detalhe para o filme em exibição em meados dos anos 50. "Por Quem os Sinos Dobram", uma adaptação do romance homonimo de Ernest Hemingway, estrelada pelo Brad Pitt da época, Gary Cooper .

Cine Glória – Detalhe para o filme em exibição em meados dos anos 50. “Por Quem os Sinos Dobram”, uma adaptação do romance homônimo de Ernest Hemingway, estrelada pelo Brad Pitt da época, Gary Cooper .

A Retomada do Cinema em Campos do Jordão

Avançamos para o século XXI e a sinopse é essa, muitos jovens falam de boca cheia: “Campos do Jordão não tem cinema”. O hiato de 30 anos fez com que toda uma geração crescesse sem considerar uma ida ao cinema como um programa de lazer na cidade. Mas justiça seja feita, vez ou outra, nesse meio tempo, houveram tentativas de retomar as atividades do Cine Glória. Até mesmo com títulos comerciais. O blogueiro que escreve esse post aos 10 anos dormiu durante uma sessão de Street Fighter em 1995, e três anos depois, em 1998 aos 13 anos, assistiu Titanic. Mas as tentativas de viabilizar novamente o cinema da cidade em sua maioria foram frustradas. A sala deteriorada e os projetores antigos não ajudavam.

cineclube araucária

Foi preciso o avanço da tecnologia para o cinema renascer em Campos. E o herói dessa história tem nome e sobrenome: Cineclube Araucária. O Cineclube Araucária é obra de um grupo de amigos que se reuniu em 2011 e começou a promover exibições de filmes premiados e cultuados pela crítica. Desde então restaurantes, hotéis, pousadas e salas de centros culturais da cidade passaram a receber sessões de filmes e debates promovidos pelo grupo.

Tela pequena, sonho grande - Primeira sessão do Cineclube Araucária exibida no antigo Cine Glória. Na ocasião foi exibido o filme HOME – NOSSO PLANETA, NOSSA CASA, de Yann Arthus-Bertrand.

Tela pequena, sonho grande – Primeira sessão do Cineclube Araucária exibida no antigo Cine Glória. Junho de 2011. Na ocasião foi exibido o filme HOME – NOSSO PLANETA, NOSSA CASA, de Yann Arthus-Bertrand.

Tudo graças à tecnologias como o dvd e o blu-ray, e projetores modernos, bem mais baratos que os tradicionais projetores de rolo. Assim os idealizadores do cineclube conseguiram adquirir muitos filmes, bem como exibi-los. O que deu início a formação de um novo público interessado em cinema na cidade.

Foi lá na Amazônia que o cineclube de Campos nasceu

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Amor pelo cinema – O produtor cultural Cervantes Souto Sobrinho, idealizador do Cineclube Araucária.

O que começou como uma reunião de amigos ganhou corpo. O Cineclube Araucária nos últimos dois anos começou a pautar boa parte das atrações culturais de Campos do Jordão, tornando-se um importante player cultural da cidade.

E esse prestígio se deve, sobretudo, ao produtor cultural Cervantes Souto Sobrinho e sua crença no cinema enquanto ferramenta de transformação social e cultural.

Fã de cinema desde a infância em Lins, sua cidade natal, o jordanense de coração decidiu se mexer para criar o cineclube Araucária após um encontro com realizadores durante a terceira edição do Amazonas Film Festival, evento produzido pela sua produtora, a PG Music Produções Culturais.

Inspiração - Foi no Amazonas Fil Festival que surgiu a ideia do Cineclube Araucária. Na foto: O histórico Teatro Amazonas.

Inspiração – Foi no Amazonas Film Festival que surgiu a ideia do Cineclube Araucária. Na foto: O histórico Teatro Amazonas.

Foi no evento em Manaus, em 2006, num hotel à margem do Rio Amazonas, durante uma conversa informal com colegas do mercado cinematográfico que Cervantes foi provocado: Como podia um amante do cinema como ele viver em Campos do Jordão, uma cidade que não tinha sequer uma sala de cinema. Mas o produtor cultural respondeu seus interlocutores com uma nova provocação: que pecado uma cidade que já foi cenário de importantes produções como Floradas na Serra, por exemplo, e que recebe o maior festival de música erudita da América Latina, não ter um espaço para a difusão da produção audiovisual. E da conversa saiu com a ideia de criar um cineclube em Campos, e com a promessa do apoio de vários atores, diretores e de um representante de uma grande distribuidora brasileira de filmes, para viabilizar o projeto.

Você acredita em arte?

Porque trabalhar com arte/cultura pede um bocado de fé.

Desafiador – Porque trabalhar com arte/cultura pede um bocado de fé.

A série Sense 8, da plataforma online Netflix, traz no quinto episódio um diálogo interessante entre dois personagens que interpretam atores de um filme B. Numa pausa entre a gravação do filme fictício, durante um bate papo sobre carreira, o personagem que interpreta o vilão do filme fala para o ator que interpreta o mocinho, “A arte é como a religião. Para os fiéis de uma religião, a religião é tudo. Para quem não acredita nela, é só um monte de besteira. O mesmo acontece com a arte”.

A reflexão acima talvez explique o empenho que resultou no sucesso do cineclube Araucária. Cervantes é do time que acredita em arte. O produtor moveu e move até hoje mundos e fundos pelo cinema.

Desbravador - A batalha do moinho de vento de Dom Quixote está para o produtor cultural Cervantes Souto Sobrinho, como sua batalha para emplacar o Cineclube Araucária em Campos do Jordão.

Desbravador – A batalha do moinho de vento de Dom Quixote está para o produtor cultural Cervantes Souto Sobrinho, como sua própria batalha para emplacar o Cineclube Araucária em Campos do Jordão.

Ação: Um Dom Quixote à serviço do cinema

Como Dom Quixote, personagem mais famoso do escritor que inspirou seu nome, Cervantes é imaginação à flor da pele. Com uma postura à la Walt Disney, “Seu eu posso sonhar, posso realizar”, Cervantes encampou uma batalha obstinada frente ao seu “moinho de vento”: fundar e fazer o Cineclube Araucária decolar.

Formar público e levar o Cinema de volta ao antigo Cine Glória parecia uma missão fadada ao fracasso. Igual Dom Quixote caindo do cavalo ao ser atingido pela hélice do moinho de vento que ele jurava ser um gigante cruel.

Coisas mágicas acontecem - Realizadores são assim.  Enxergam e compreendem realidades que a maioria não consegue.

Coisas mágicas acontecem – Realizadores são assim. Enxergam e compreendem realidades que a maioria não consegue.

Mas como o próprio Dom Quixote ensina ao seu fiel escudeiro, Sancho Pança, quando este o questiona se estava louco, pois não viu que se tratava de um moinho e não um gigante: o ataque ao moinho não foi loucura. O mago Frestão transformara os moinhos em gigantes e pouco tempo depois a magia se desfez. Mas não a tempo de Dom Quixote conseguir frear seu ataque e evitar ser derrubado pelo moinho. Dom Quixote não acreditava que aquele moinho agora a sua frente era um gigante, mas acreditava nos poderes do mago Frestão. Dom Quixote acreditava na magia. E uma batalha imaginária valia tanto a pena como uma real. Porque magia é real.

O produtor cultural Cervantes também acredita em magia, principalmente na magia do cinema. E acreditava que a batalha pelo cineclube valia a pena. O cineclube já era real mesmo quando ainda estava apenas na sua cabeça. Mas diferente de Dom Quixote, Cervantes venceu a batalha.

Conquistas - O orgulho estampado no sorriso de um voluntário da arte do Cinema.

Vencedor - O orgulho estampado no sorriso de um voluntário da arte do Cinema.

O legado ou o Glorioso retorno do Cine Glória

Quatro anos depois de sua fundação, o Cineclube Araucária já tem uma história de conquistas que é rara entre cineclubes. Graças a gestão cultural eficiente e certeira de Cervantes.

cine novo logo

Nos dois últimos anos o cineclube foi contemplado em programas de incentivo à cultura como o PROAC, e firmou parcerias com instituições como Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Campos do Jordão; a AME Campos; a Secretaria de Cultura de Campos do Jordão, a Oficina de Artes Rosina Pagan, entre outros parceiros da iniciativa privada.

O resultado: O antigo Cine Glória ganhou poltronas novas e um projetor moderno. O antigo mezanino, uma área vip conhecida como “Pulmann” nos tempos áureos do cinema, ganhou uma biblioteca de Cinema decorada com pôsteres de filmes clássicos e cults e que disponibiliza centenas de obras sobre a sétima arte, bem como romances que inspiraram filmes célebres.

Sonho realizado -  A Biblioteca de Cinema de Campos do Jordão.

Sonho realizado – A Biblioteca de Cinema de Campos do Jordão.

Confortáveis poltronas que evocam o estilo art-deco, da época de ouro do cinema, acomodam os leitores da biblioteca, que divide o segundo andar do cinema com o Memorial do Cine Glória, um museu com projetores antigos, bombonieres restauradas, máquinas registradoras dos caixas, entre outros equipamentos que contam a história do cinema de Campos do Jordão.

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Memorial do Cine Glória - O projetor original do cinema, tendo ao fundo os grandes carretéis que permitiam a projeção sem interrupções.

Mas não para por aí, a iniciativa do Cineclube também deu origem a Oficina de Cinema, um projeto de formação audiovisual que funciona na Escola Estadual Vila Albertina e que atualmente conta com 48 alunos.

1º Festival Curta Campos do Jordão que acontecerá entre os dias 11 e 13 de dezembro, no Espaço Cultural Dr. Além (antigo Cine Glória de Campos do Jordão).

Futuros Amantes do Cinema - Grupo de alunos finalizando um curta inscrito no  “1º Festival Curta Campos do Jordão” que acontecerá entre os dias 11 e 13 de dezembro, no Espaço Cultural Dr. Além (antigo Cine Glória de Campos do Jordão).

Epílogo

Assim o cinema retornou ao cotidiano de Campos do Jordão. E o antigo Cine Glória voltou a fazer jus ao seu nome original. Desde 2011 a obra de mestres como Orson Welles, Glauber Rocha, Eduardo Coutinho, Alfred Hitchcock, Pedro Almodóvar, Tim Burton, Quentin Tarantino, Stanley Kubrick, e de dezenas de outros grandes diretores (a lista é grande), voltaram a brilhar no escurinho do Cine Glória, que também passou a receber a itinerância da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Criador e Criatura - Cervantes na Biblioteca de Cinema.

Criador e Criatura – Cervantes na Biblioteca de Cinema.

Hoje o antigo Cine Glória, atual Espaço Cultural Dr. Além, com a curadoria exemplar do Cineclube Araucária, a Biblioteca de Cinema e o Memorial já figura para quem gosta de cultura como um ponto turístico obrigatório em Campos do Jordão. Um “THE END”, ou seja um “FIM” à altura do que o Cine Glória e o trabalho de Cervantes merecem.

Campos do Jordão e o Cinema agradecem ;D Corta!

theend

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Onde fica?

Espaço Cultural Dr. Além ( Cine Glória)

Av. Dr. Januário Miraglia, 1582

A Biblioteca de Cinema funciona regularmente de segunda a sexta, das 9 às 17 horas. E também nas noites que ocorrem sessões de filmes, das 19h30 às 21h30.

www.cineclubearaucaria.org

facebook.com/cineclube.araucaria

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